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há 2 dias por Regina Pitoscia

Jovem usa tecnologia financeira, mas não cuida bem do dinheiro

Os jovens são bem mais receptivos às novas tecnologias na hora de cuidar de suas finanças. Mais antenados com as recentes modalidades para investir o dinheiro, levantar um crédito ou simplesmente manter uma conta corrente.

Não há maiores barreiras nem receio em fazer todas essas operações de forma remota, pela internet, sem conhecer o profissional ou mesmo ter uma conversa cara a cara com quem cuidará de seu patrimônio. Muito diferente de gerações anteriores, acostumadas a falar diretamente com seu gerente de conta, na agência, em sua mesa e, de preferência, tomando um cafezinho com ele. Hoje, basta ter o aplicativo no celular para ir dando conta das tarefas financeiras.

Toda essa desenvoltura, no entanto, não lhes confere o passaporte de bons administradores de seu dinheiro. Em pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), foi detectado que quase a metade, 47%, admite não ter o controle de suas finanças.

Várias das respostas para essa atitude foram surpreendentes para um grupo formado por entrevistados de 18 a 24 anos. Em uma geração, conhecida como Geração Z, que cresceu em ambiente digital, com acesso a grandes quantidades de informação, recursos tecnológicos e propensão ao auto aprendizado, 19% disseram não saber como fazer para administrar bem as finanças; 18% disseram sentir preguiça; 18%, não ter hábito ou disciplina, e 16%, não ter rendimentos.

Entre os que acompanham suas receitas e despesas, embora estejam conectados ao mundo digital, com os mais diferentes tipos de planilhas eletrônicas, 26% revelaram utilizar o tradicional bloquinho de papel para organizar o orçamento.

A grande maioria dos participantes trabalha (78%), sendo que boa parte (36%) com carteira assinada e 23% estão alocados em vaga informais, fazendo bicos ou atuando como freelancer. Ao mesmo tempo, 22% dos consultados afirmam não ter nenhum tipo de renda. Dos que recebem rendimentos, 52% disseram ter dinheiro guardado.

A modernidade também não apareceu quando a questão foi referente aos tipos de investimento feitos pelos jovens: 53% disseram guardar suas economias na caderneta de poupança, 25% em casa e 20% na conta corrente. Ou seja, em segmentos que rendem muito pouco ou quase nada. E isso quando eles têm à disposição aplicativos que podem sugerir e empregar o dinheiro de forma eficiente e rentável.

Entre os que possuem algum tipo de poupança, o fazem para a cobertura de imprevistos (33%), realização de uma viagem (21%) e compra da casa própria (19%). Os que não guardam, 51% alegaram que nunca sobra dinheiro, 22% que não têm disciplina e 19% que se sentem desestimulados e sem esperança de juntar um bom valor a longo prazo, já que sobra pequena quantia a cada mês.

O estudo mostrou ainda que 65% dos entrevistados colaboram financeiramente com o sustento da casa. Considerando os gastos mensais pagos com o próprio dinheiro, nove em cada dez indicaram alguma despesa. Na primeira posição apareceu o item alimentação, com 51%. Na segunda, vestuário, com 43%; na terceira, produtos de higiene e beleza; na quinta, TV por assinatura e internet, com 31%; na sexta, contas de serviços básicos como água e luz.

Uma parcela restrita, de 11% dos jovens, tem todas as despesas pagas por terceiros.

Em relação aos hábitos de consumo, 56% admitem que costumam ceder aos impulsos quando querem muito comprar algo, sendo que quando isso acontece 47% perdem a noção de quanto podem gastar com o lazer; 34% querem ter um produto que a maioria de seus amigos têm. A forma como gastam o dinheiro, segundo 32% das respostas, leva a brigas com os pais ou marido ou mulher.

É relativamente elevado o número de jovens que já tiveram o nome negativado (37%), se considerarmos que estão há pouco tempo no mercado de consumo. Entre as principais razões para a negativação foram apontados a perda do emprego (24%), falta de planejamento dos gastos (21%) e empréstimo do nome para terceiros (20%).

Para o presidente da CNDL, José Cesar da Costa, “embora a crise econômica e o desemprego elevado ajudem a explicar as dificuldades financeiras dos jovens, é preciso ressaltar a importância de investir na formação e na educação financeira deles”.

O executivo destaca que “essa geração tem a seu favor muita familiaridade com a tecnologia e o pensamento lógico, além da fluidez ao transitar entre os ambientes físicos e online, e a aptidão de absorver e compreender novas formas de interação social mediadas pelos aplicativos e ferramentas online, bem como para colocar ideias novas em prática”.

Sem pensar no futuro

Outro indicativo de despreparo dessa faixa etária na lida com as finanças é a falta de visão em relação ao seu futuro financeiro: 75% não se preocupam nem fazem uma provisão para a aposentadoria. Entre os 25% que aplicam o dinheiro com esse objetivo, 26% afirmaram guardar na caderneta de poupança, 21% citaram o recolhimento feito ao INSS pelo patrão; e 21% optam pelos planos de previdência privada.

Em relação a esse comportamento, Costa disse que “os jovens precisam ter objetivos financeiros claros e aprender a controlar o imediatismo e os impulsos de consumo, evitando gastos excessivos desde cedo, isso para que possam alcançar as metas traçadas para o futuro”.

Mundo digital

Dos entrevistados, 65% já possuem conta corrente, 42% cartão de loja e 22%, limite do cheque especial. Praticamente seis em cada dez possuem cartão de crédito, mais precisamente 57%, e desse total um terço (34%) tem um cartão digital com abertura de conta e operação via internet. Dos que têm conta bancária, 25% só operam pelos canais digitais e 12% dos que contam com algum investimento o fizeram em fintechs ou startups do segmento financeiro.

“Quanto mais as ferramentas se tornarem rápidas e intuitivas, quanto mais fácil se tornar a abertura de uma conta ou a realização de um investimento, maior deverá ser o conhecimento dos jovens em relação às consequências da má gestão financeira”, finaliza Costa.

 

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